A Maya pensou que seria simples. Depois de seis anos na empresa, a cobrir turnos, a ficar até tarde e a fazer o trabalho que mais ninguém queria, pediu duas horas de dispensa. Apenas duas. O suficiente para subir ao palco na cerimónia de conclusão do seu curso superior.
O chefe disse que não. Foi nesse momento que percebeu: o seu tempo não era seu. Aquele choque, o calor súbito no peito, não era raiva. Era a vida a recordar-lhe que não tinha nascido para ser propriedade de ninguém. O seu tempo pertencia à empresa. Por isso, despediu-se naquele preciso momento (Ask a Manager).
Do outro lado do mundo, os trabalhadores na Índia recebiam uma mensagem ainda mais dura. Uma proposta no estado de Karnataka pretendia alargar o dia de trabalho para doze horas, tornando normal que a vida desperta de uma pessoa fosse dividida em parcelas e vendida (India Today). Pela mesma altura, a Genpact, uma empresa digital global, impôs um dia de trabalho de dez horas, avisando os trabalhadores de que o «incumprimento» prejudicaria as avaliações de desempenho (Times of India). Para manter o emprego, esperava-se que as pessoas entregassem o seu tempo, como se a própria vida estivesse arrendada.
Lugares diferentes, a mesma história. Quando as horas são tratadas como propriedade, as pessoas começam a sentir que têm dono.
A história que contamos sobre o tempo
Na Parte II, estamos a seguir o rasto das ficções que sustentam a Lente da História. Primeiro veio a propriedade: a terra dividida, vedada, vendida. Esta segunda ficção toca-nos ainda mais de perto: não apenas a terra, mas a própria vida, dividida em blocos de tempo.
«Pagam-me por 40 horas.»
«Não tenho tempo.»
«Tempo é dinheiro.»
Achamos que são expressões neutras. Mas cada frase transporta a mesma distorção: o tempo tratado como uma posse, algo que pode ser comprado, vendido e ter dono.
O tempo torna-se uma mercadoria. Através da Lente da História, o tempo não pertence à vida, mas ao relógio. Contado. Medido. Trocado como dinheiro.
Ter um emprego é cortar a vida em pedaços, quarenta horas aqui, cinquenta ali, e entregá-los. Durante essas horas, desaparecemos dentro do ritmo de outra pessoa. Durante esse período, não pertencemos a nós próprios. Pertencemos a outros.
Essa é a ficção escondida do emprego: a nossa presença transformada em unidades de trabalho, unidades que podem pertencer a uma organização. Deixamos de ser pessoas e passamos a ser ferramentas de aluguer.
Controlo Necessário
Porque se enraizou esta história?
Na sua raiz está a história do Controlo Necessário. A ideia de que, sem horários, contratos e supervisão, as pessoas desperdiçariam as suas vidas. Aqueles primeiros relógios não foram construídos por curiosidade: foram construídos para controlar. Os sinos diziam aos monges quando rezar; as sirenes das fábricas diziam aos trabalhadores quando se mover. Pouco a pouco, os ritmos da vida foram substituídos pelos ritmos do relógio.
Mais tarde, os donos das fábricas usaram os relógios para impor turnos, fragmentando os ritmos das aldeias em horas industriais. No século XX, a semana de trabalho de 40 horas já se tinha tornado inquestionável. Não porque a vida flua em blocos de 40 horas. Porque o controlo o exigia.
O impacto está por todo o lado. Os despertadores arrancam-nos do sono. Os toques para o almoço dizem-nos quando comer. As melhores horas do dia são vendidas a estruturas que compram o nosso tempo. A liberdade torna-se aquilo que sobra: os serões, os fins de semana, as férias. Mas o tempo em si não é uma posse. O tempo é viver. Não pode ser possuído nem vendido. O tempo não é um tiquetaque. É respirar, energia em movimento, atenção que muda de foco e relações que se formam.
Mudamos de lente e o tempo deixa de ser moeda. Torna-se fluxo. Através da Lente da Vida, um emprego não é um bloco de horas: é um espaço de contributo. O que importa não é preencher espaços num calendário, mas servir a vida. Dar vida à criatividade, ao cuidado e à energia. Dar o nosso tempo não é cedê-lo, mas entrar em relação, cocriar algo com os outros. Através desse fluxo, encontram resposta as necessidades reais da vida: ser, sentido, impacto, pertença e transformação. Não contabilizando horas, mas vivendo-as.
Mudar de lente na prática
Aquele nó no estômago quando alguém diz que «devemos» tempo? Não é confusão. É a vida a resistir a que nos seja arrancada aos pedaços.
E podemos viver essa resistência já:
Dar nome à ficção. Quando alguém diz «Deves-me 40 horas», perguntar: as horas pertencem a alguém? Ou fazem parte da própria vida?
Mudar a perspetiva sobre o emprego. No nosso trabalho, deslocar o foco do tempo para o contributo: a que estamos aqui para dar vida em conjunto?
Recuperar um espaço de liberdade. Proteger um tempo que não esteja à venda — um ritual, um projeto, uma relação — e reconhecê-lo como nosso.
Questionar o pressuposto. Quando o «tempo inteiro» é definido como 40 horas, perguntar: porquê 40? Quem decidiu? Que vida serve isso?
Cada ato de resistência é mais do que um desafio à autoridade. É uma forma de recuperar tempo para responder às necessidades da vida: descansar, criar, estabelecer ligações, crescer. Sempre que recusamos tratar as horas como dinheiro, voltamos a mudar de lente: do tempo como mercadoria para o tempo como vida que se desenrola.
Das horas com dono aos ritmos vivos
A história que herdámos apresenta o tempo como algo que se possui e vende. A história de que precisamos recorda-nos que ele é ritmo, presença e fluxo. Sempre que resistimos à ficção de que as nossas horas podem pertencer a outra pessoa, regressamos à verdade: o tempo é a própria vida. Não se possui. Vive-se.
O tempo é apenas a segunda camada. Primeiro, a terra foi dividida em propriedades. Depois, as nossas vidas foram divididas em horas que podiam ser compradas e vendidas. Destas ficções surgiu algo ainda mais estranho: as próprias organizações — empresas, instituições, sociedades comerciais — receberam o estatuto de «pessoas».
Perante a lei, tornaram-se mais reais do que os seres vivos que as criaram. É para aí que nos voltamos a seguir.
Convido-o a mudar a história
Se não se importa que as suas horas pertençam a outra pessoa, se a história de que «tempo é dinheiro» ainda lhe serve, então continue. Mas, se sente o peso dos despertadores e dos horários impostos a desgastá-lo, se sabe no seu íntimo que as suas horas são a própria vida, não blocos para alugar, então aqui fica o convite: mude de perspetiva.
Porque, quando recuperamos o nosso tempo, recuperamos as nossas vidas. Não sozinhos, mas em conjunto. A economia colaborativa trata dessa mudança: das horas alugadas para os ritmos partilhados. De vender tempo para criar vida. O que significaria dedicar as nossas melhores horas não a aguentar ou a fugir, mas a construir sistemas que realmente nos sirvam? Investir o nosso tempo uns nos outros, na habitação, na alimentação, no cuidado, na criatividade, na comunidade?
O relógio não o fará por nós. Os mercados também não. Tudo começa quando deixamos de vender as horas que nos mantêm vivos e começamos a dedicá-las ao que faz a vida prosperar.
A pergunta nunca foi se temos tempo. Temos. A pergunta é: vamos continuar a cedê-lo em troca de algo, ou vamos dedicá-lo àquilo que nos mantém vivos, em conjunto?
