← Voltar ao Blog
Nosso Sistema Vivo17 de setembro de 2025

A Vida Não É um Recurso

Por José A. Leal

A Vida Não É um Recurso

«Recursos humanos.»
«Recursos naturais.»
«Reservas alimentares.»

Dizemos estas palavras com naturalidade, como se fossem termos neutros e profissionais. No entanto, cada uma transporta uma violência silenciosa. Uma pessoa torna-se um efetivo. A água torna-se um ativo. Uma floresta torna-se inventário.

A própria vida é traduzida em fatores de produção para outra coisa: a empresa, a economia, o plano. E, se escutarmos com atenção, podemos sentir a dissonância. Uma parte de nós sabe que uma floresta não é inventário, que um rio não é um ativo, que não podemos ser reduzidos a um número numa folha de cálculo. No entanto, o sistema insiste no contrário.

Isto só faz sentido através da Lente da História, uma forma de ver que nos coloca fora da vida e apresenta o mundo vivo como matéria-prima a gerir. Através dessa lente, reduzir a vida a unidades parece «prático». Promete clareza, incentivos e controlo.

O custo de uma história que ignora a vida

Mas há um custo. Quanto mais apresentamos a vida como um recurso, mais nos permitimos despojá-la de tudo o resto. As florestas caem e chama-se a isso crescimento. As pessoas esgotam-se e isso é medido como produtividade. Os rios secam e isso é apresentado como eficiência.

A história não distorce apenas o que vemos; distorce o que nos permitimos fazer. Ser radical é ir à raiz, e a raiz é a vida. Tudo o resto é história sobreposta. Visto através da Lente da Vida, o mesmo mundo parece diferente. As florestas são comunidades de seres. Os rios são artérias de vida. As pessoas participam num todo maior. A realidade não muda: muda apenas a forma como nos permitimos vê-la.

E, quando o véu se rasga, a mudança não é teórica. Já está a acontecer. Onde antes os locais de trabalho funcionavam através de um controlo rígido, as pessoas estão a experimentar ritmos de tentativa, escuta e adaptação: empresas a testar a cogestão, agricultores a reconstruir redes alimentares locais e equipas a escolher a confiança em vez da obediência rígida. Onde o mundo era reduzido a categorias e relatórios, alguns começam a ver o seu trabalho como parte de um ecossistema interdependente, concebendo redes alimentares em vez de apenas cadeias de abastecimento. E, onde os contratos antes definiam tudo, as equipas estão a recuperar a confiança e o cuidado como fundamento do seu trabalho.

Não são estratégias nem modelos de trabalho. Não são novas histórias em que acreditar. São sinais da vida a encontrar novos caminhos sempre que a história se afasta demasiado da realidade.

A defesa da história

Os economistas argumentarão: «Mas este sistema funciona. Tratar a vida como recursos motivou as pessoas a trabalhar, criou ordem e construiu economias que tiraram milhares de milhões de pessoas da pobreza.» E sim, através da Lente da História, a lógica mantém-se.

Mas olhe à sua volta. O que parece progresso na história é muitas vezes vida a ser esgotada para manter essa história viva. Os solos perdem espessura. As águas recuam. As pessoas oscilam entre o esgotamento e o desinteresse. As culturas desfazem-se. As cadeias de abastecimento tornam-se frágeis. Os locais de trabalho exigem intermináveis «programas de envolvimento» porque o próprio trabalho não alimenta a vida de ninguém. A propriedade, os contratos e os preços podem coordenar a complexidade, mas a fatura é pesada: um sistema que funciona à custa do esgotamento da terra, da água, da confiança e do sentido.

Não falta motivação. Falta sentido. As pessoas não precisam de que lhes deem corda; precisam de estar ligadas: a necessidades reais, a respostas reais, a uma pertença real. Quando o trabalho encontra sentido na vida, a energia não se esgota: renova-se.

Mudar a base

A dissonância que sente não é confusão; é a vida a rebelar-se contra a ficção. E essa rebelião não é abstrata. Pode ser vivida agora.

Se isto faz sentido para si, não escreva mais uma política. Mude a base em que todos se apoiam. Esse é o passo radical: regressar à vida como fundamento do trabalho. Experimente:

  1. Mude as palavras que definem o olhar. Troque «Recursos Humanos/Efetivos» por «Pessoas e Colaboração». Substitua «recursos» por «capacidades» ou «pessoas que contribuem». (A linguagem molda aquilo que parece «óbvio».)

  2. Torne visível a necessidade real. Em qualquer projeto, escreva no topo a necessidade da vida a que responde: Que aspetos da vida são servidos? Como o saberemos? Mantenha-a visível.

  3. Torne um fluxo mais saudável. Escolha um fluxo vivo sobre o qual a sua organização tem influência: solo, água, tempo ou atenção. Escolha uma ação que o fortaleça e tenha em conta esse resultado a par do dinheiro.

  4. Torne uma escolha evidente. Acrescente um sinal pequeno e claro para que a ação ao serviço da vida seja o próximo passo mais fácil: uma configuração por defeito, um percurso a um clique ou informação visível sobre os seus efeitos.

Isto não é um novo plano, enquadramento ou modelo. Tudo isso são ajustes à mesma história. E a questão não é que a velha história esteja errada e uma nova estaria certa. A questão é que qualquer história que se coloque à frente da vida é insustentável. A vida não espera por estratégias nem se dobra a modelos. Regenera-se e, quando a história se esquece disso, por mais engenhosa, eficiente ou lucrativa que seja, a vida desmorona-se sob o seu peso.

A compreensão que nos atravessa é esta: a história nunca é a realidade. A vida é. E qualquer sistema que se esqueça disto acabará por se consumir, deixando apenas a realidade que tentou dominar.

← Voltar ao Blog
A Vida Não É um Recurso | Radical World