No primeiro artigo desta série, Servir a Vida, vimos como a vida no seu todo é apresentada como um recurso. Essa inversão não se fica pela chamada natureza: volta-se para nós. Nos locais de trabalho, nas organizações e nas economias, as pessoas já não são simplesmente pessoas. São «ativos», «efetivos» e «centros de custo». Departamentos inteiros recebem o nome de Recursos Humanos, como se os seres vivos que chegam todos os dias fossem materiais a distribuir.
A nossa lente quotidiana
«Precisamos de aumentar os efetivos.»
«As nossas pessoas são o nosso maior ativo.»
«O capital humano é o nosso investimento mais importante.»
«Estamos à caça dos melhores talentos.»
Estas frases saem-nos com naturalidade. Mas cada uma transporta uma distorção silenciosa: a tradução da vida humana em unidades de valor. Até o termo inglês headhunting, literalmente «caça de cabeças», torna a redução evidente: as pessoas são tratadas não como seres inteiros, mas como cabeças para contar, caçar e adquirir.
Lente da História: os seres humanos como ativos, custos e capital
Através da Lente da História, esta linguagem faz sentido. As organizações funcionam com orçamentos e balanços. As pessoas são redefinidas em termos de produtividade, reservas de talento ou passivos. Nesta lente, o valor de um ser humano fica preso ao que produz e aos custos que gera.
Vale a pena recordar que termos como «capital humano» surgiram para destacar que as pessoas são centrais para o sucesso das organizações, para sublinhar a sua importância em termos empresariais. No entanto, com o tempo, essa perspetiva estreitou-se, reduzindo as pessoas a meios para outros fins: o desempenho da empresa, os objetivos de progressão na carreira, as abstrações do crescimento do PIB.
Lente da Vida: as pessoas como fluxos únicos de ser e contribuir
Através da Lente da Vida, surge algo diferente. Cada pessoa não é capital, mas um fluxo único de existência, vivo de relações, criatividade e contributo. Visto desta forma, o trabalho não consiste em extrair desempenho, mas em cultivar as condições para que a vida floresça através do contributo partilhado.
Chamar «recursos» às pessoas é esquecer que cada ser humano é, ao mesmo tempo, insubstituível e interligado. Não somos ativos a consumir, mas participantes no contínuo desenrolar da vida.
Mudar de lente na prática
A dissonância que sente ao ouvir «efetivos» ou «recursos humanos» não é confusão: é a vida a rebelar-se contra a ficção. E essa rebelião torna-se real quando ganha voz. Experimente:
Chame a atenção.
Quando ouvir «efetivos» ou «capital humano», faça uma pausa e pergunte: É assim que queremos ver as pessoas? Até uma pergunta delicada planta uma semente.Substitua em voz alta.
Em vez de substituir apenas mentalmente «efetivos» por «pessoas que contribuem», diga-o: «Precisamos de mais duas pessoas a contribuir para este projeto.» As palavras ditas abertamente mudam aquilo que parece óbvio.Faça a pergunta humana.
Quando alguém é chamado de «recurso», pergunte: A vida de quem está a ser afetada aqui? Como pode essa pessoa florescer neste papel?Convide à reflexão.
Nas reuniões ou sessões de planeamento, reserve um momento para que as pessoas se afastem dos indicadores e perguntem: Que realidades humanas estão por detrás destes números?
Sempre que a linguagem do capital é questionada em voz alta, a Lente da História perde terreno e a Lente da Vida começa a transformar a cultura que partilhamos.
Do capital ao contributo
A inversão que herdámos apresenta as pessoas como capital, como efetivos a gerir, até a «caçar». A mudança de que precisamos é reconhecer as pessoas como vida em movimento, cada uma insubstituível, cada uma com dons para o todo. Se continuarmos a conceber os locais de trabalho apenas em torno da eficiência, continuaremos a esgotar a própria vida que as pessoas encarnam. Mas, se voltarmos a mudar de lente, o trabalho deixa de ser sobre gerir ativos e passa a ser sobre servir a vida.
A pergunta já não é quanto podemos obter das pessoas, mas o que se torna possível quando têm liberdade para trazer a plenitude da sua vida para o trabalho que partilhamos. Não se trata de abandonar a responsabilidade ou o desempenho; trata-se de recordar que o desempenho, sem a vida plena das pessoas que o sustentam, é vazio.
