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Nosso Sistema Vivo3 de novembro de 2025

O Que É um Emprego?

Por José A. Leal

O Que É um Emprego?

Quando a sobrevivência se tornou um papel

O meu primeiro trabalho não foi aquele de que costumo falar.

Quando me perguntam, digo muitas vezes que comecei o meu primeiro negócio aos dezasseis anos, a fazer desenho técnico à mão para arquitetos e engenheiros. É verdade. Mas deixa de fora o que veio antes, a parte de que não falei durante anos.

Muito antes de desenhar plantas, esfregava chão. A minha família tinha emigrado dos Açores e, como muitas famílias imigrantes, aceitávamos o trabalho que não exigia inglês nem estudos: as limpezas. Desde os doze anos, eu e as minhas irmãs mais novas ajudávamos os nossos pais a limpar consultórios médicos, stands de automóveis, bancos e consultórios dentários em Silicon Valley. Éramos as mãos adicionais que lhes permitiam aceitar o maior número possível de trabalhos. Cada um pagava muito pouco.

Lavávamos o chão, limpávamos sanitas e esvaziávamos caixotes do lixo. Aquilo era um trabalho. Ajudava-nos a sobreviver. Claro que eu queria mais. Queria ser arquiteto. Mas isso ficava à margem: um sonho a que dedicava todos os momentos livres. Há um estigma associado a esse tipo de trabalho, ainda maior quando os filhos o fazem connosco. Mas essa era a nossa realidade. Os meus pais temiam o dia em que não encontrassem trabalho. Ou em que perdessem um dos serviços. O que acontecia regularmente. Desde cedo compreendi uma coisa: um emprego não é apenas trabalho. É o nosso direito a pertencer.

O pacto por detrás do emprego

Um emprego nunca é apenas uma forma de ganhar dinheiro. É um pacto e uma fronteira. Uma estrutura de sobrevivência e um sistema de força. Damos o nosso tempo, a nossa energia vital, em troca de permissão para participar. O salário é apenas uma parte. A moeda mais profunda é a pertença. O custo mais profundo é a obediência.

Os políticos sabem-no.

Falam de «criar emprego» como se estivessem a conjurar a própria vida. Os «empregos bem pagos» tornam-se slogans de campanha. Os adversários são acusados de «destruir empregos», como se estivessem a desmantelar a própria sociedade.

As empresas também o sabem.

Usam o emprego como recompensa e ameaça: a promessa de segurança para atrair, a ameaça de o retirar para controlar. «Vamos trazer mil postos de trabalho para a vossa comunidade» significa muitas vezes benefícios fiscais para elas e dependência para todos os outros. Mas um emprego não é apenas um símbolo. É um mecanismo de disciplina. Determina quando acordamos, quanto tempo ficamos sentados, o que vestimos, o que dizemos e a quem respondemos. A ameaça de perder o emprego mantém populações inteiras na linha, caladas, obedientes, com medo de falar.

Nos Estados Unidos, a ameaça vai ainda mais fundo. Aqui, um emprego não significa apenas rendimento. Significa muitas vezes acesso a cuidados de saúde. Ao contrário da maioria dos países, onde a saúde é um direito, o sistema norte-americano associa o seguro de saúde ao emprego, uma prática que começou durante a Segunda Guerra Mundial, quando os limites salariais levaram as empresas a oferecer benefícios em vez de aumentos de salário. O que começou como uma solução alternativa tornou-se uma armadilha.

Perdemos o emprego e arriscamo-nos a perder também o acesso aos cuidados. As pessoas permanecem em ambientes de trabalho tóxicos. Calam-se perante maus-tratos. Reprimem o que lhes importa apenas para manter a cobertura. E, quando a história muda, são despedidas, não porque tenham deixado de contribuir, mas porque o seu papel já não é necessário. É essa a questão dos empregos: não têm que ver apenas com trabalho. São uma forma de impor silenciosamente o controlo. Não perdemos apenas o emprego.

Perdemos segurança. Identidade. Cuidados. Voz.

Agora, com o avanço da inteligência artificial, volta o aviso: «O seu emprego está em risco.» E a solução proposta? Um cheque do Estado. O Rendimento Básico Incondicional. Um salário por existir num sistema que talvez já não precise do nosso trabalho, mas que continua a reservar-se o direito de definir o nosso valor. A história mantém-se: a vida tem de ser tornada obediente antes de poder contar.

O custo do papel

Quando comecei a fazer desenho técnico, pensei que tinha escapado àquele mundo.

Sem esfregonas. Sem vapores químicos. Um passo mais perto da vida que imaginava. Mais tarde, quando o meu negócio de consultoria em desenho assistido por computador começou a enfraquecer com a quebra do mercado imobiliário canadiano, cofundei uma empresa de Internet. Lutávamos para sobreviver. Mas não estávamos apenas a trabalhar: estávamos a inovar, a construir, a dar forma a algo novo.

Depois, fomos adquiridos. Tornei-me diretor-geral. Mais tarde, vice-presidente. Cargo. Salário. Ações. Benefícios. Todos os sinais de sucesso. Pela primeira vez, senti do outro lado toda a engrenagem do sistema de emprego.

Tudo girava em torno de números, efetivos, orçamentos e metas. As pessoas tornavam-se rubricas contabilísticas. O seu valor era medido por avaliações de desempenho e objetivos trimestrais. Lembro-me de despedir pessoas trabalhadoras e empenhadas, não porque tivessem falhado, mas porque a folha de cálculo o exigia.

Diziam-me que eram apenas negócios. Mas, para mim, era profundamente pessoal. Foi nesse momento que vi com clareza: o emprego tinha deixado de ser sobre o contributo. Tinha passado a ser sobre o controlo.

Através da Lente da Vida

Os empregos não são um mal. São apenas histórias, formas de organizarmos o contributo e a troca. Mas, como qualquer história, podem cristalizar-se em dogma. Podem afastar-se das realidades vivas que deveriam servir. Através da Lente da História, os empregos parecem naturais, até moralmente certos. Organizam o esforço. Medem o valor. Separam quem tem emprego de quem não tem. Oferecem estrutura, identidade e legitimidade.

Através da Lente da Vida, os empregos não são a realidade. São molduras. Por vezes úteis. Sempre simbólicas. A vida não precisa de um emprego para ter valor. Uma floresta filtra o ar. Uma criança cria. Um vizinho ajuda. O contributo não precisa de permissão. A vida não pica o ponto. Flui.

Devolver a vida ao centro

Por vezes, penso naquelas noites iluminadas por lâmpadas fluorescentes, no som dos aspiradores, no silêncio dos edifícios vazios, na dignidade discreta daquilo que dávamos. Não éramos empregados. Éramos pessoas que contribuíam. Não tínhamos cargos. Tínhamos propósito. Não precisávamos de um emprego para valer alguma coisa. Mas o mundo à nossa volta dizia o contrário. Essa história, a que equipara o trabalho à legitimidade, já durou o suficiente.

Porque, por baixo de cada currículo, de cada contrato, de cada emprego perdido ou conseguido, há algo mais profundo: o pulsar da própria vida. Dar. Responder. Pertencer. Essa é a verdadeira economia: uma economia viva. E aqui está a reviravolta: apesar de todas as suas limitações, os empregos também nos deixaram algo poderoso. Ensinaram-nos a coordenar. A especializar-nos. A construir em conjunto. Deram-nos ferramentas, sistemas, modelos e linguagem para gerir a complexidade e colaborar através das diferenças.

E se essas mesmas ferramentas pudessem agora servir outro propósito?

E se não estivéssemos perante o fim do trabalho, mas perante o início de algo mais vivo?

Um futuro de colaboração, não de emprego. De propósito partilhado, não de papéis fixos. Um mundo onde o contributo nasce da necessidade, não de uma tarefa atribuída. Onde a coordenação é escolhida, não imposta. Isto não é um ideal. É um futuro possível. Um futuro para o qual talvez já tenhamos tudo aquilo de que precisamos.

As Collabs, redes de pessoas que cocriam através de protocolos partilhados, já estão a surgir. Não como substitutas dos empregos, mas como o próximo capítulo do contributo humano. Nascidas do que veio antes. Orientadas para o que vem a seguir. Porque toda a história desligada da vida procura controlá-la. E toda a história enraizada na vida aprende a servi-la. É essa a mudança que estamos a viver: da obediência à ligação, do trabalho à vida, dos empregos ao impacto partilhado. E é aí que esta viagem continua.

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