Um dos primeiros arquitetos com quem trabalhei chamava-se James Miller. Projetávamos mansões nas colinas em redor de Silicon Valley. Décadas mais tarde, dei por mim a ler a teoria dos sistemas vivos de outro James Miller — James Grier Miller — num PDF de 1.102 páginas que tinha conseguido encontrar na internet.
Parecia que a vida me estava a enviar a mesma mensagem duas vezes. Vindo da arquitetura, tudo fez sentido de imediato: o mundo como estruturas contidas umas nas outras, fluxos, trocas, padrões dentro de padrões. Era como descobrir uma verdade mais profunda.
Mas ainda não via a ilusão mais profunda que ali se escondia. Continuava a acreditar que era uma mente separada a observar um sistema, em vez de um participante moldado por ele. Pensava que existiam «aqueles sistemas» e depois existia eu: o observador, o analista, aquele que talvez um dia pudesse ajudar a corrigi-los. Demorei anos a perceber até que ponto tinha interiorizado uma história que fazia esta separação parecer natural.
Ver padrões em vez de partes
O pensamento sistémico revela a arquitetura oculta do comportamento. Os padrões subjacentes aos acontecimentos. As estruturas subjacentes aos resultados. Os ciclos subjacentes aos hábitos. Convida-nos a ver para lá da culpa e da personalidade, a reparar na forma como as relações moldam tudo.
Para alguém criado numa cultura de individualismo, isto foi libertador. Enfraqueceu a crença de que os problemas vêm de «más pessoas». Apontou, em vez disso, para algo mais honesto:
A maioria das dificuldades nasce das correntes em que nadamos, não dos indivíduos que nelas se encontram.
Mas até esta clareza traz consigo um perigo subtil.
Se conseguirmos ver os sistemas, podemos corrigi-los
Assim que começamos a ver as relações, surge uma lógica sedutora:
Se mapearmos o sistema com suficiente rigor, podemos compreendê-lo suficientemente bem e, se o compreendermos suficientemente bem, podemos corrigi-lo. Parece objetivo, racional, dá-nos uma sensação de capacidade. Parece que começamos a dominar a situação.
Mas o domínio exige distância, e a distância é a primeira mentira que o individualismo nos ensina. Imaginamos que podemos ficar fora do sistema porque imaginamos que estamos separados dele. Como se os nossos próprios medos, esperanças, instintos e adaptações não fossem expressões do mesmo sistema que estamos a tentar mudar. O individualismo ensinou-nos que temos uma relação com a vida.
Não nos ensinou que somos uma relação dentro da vida. Por isso, continuámos a desenhar diagramas como se estivéssemos de fora a olhar para dentro.
O diagrama de um sistema não pode sentir, adaptar-se ou viver
Na arquitetura, aprendi a desenhar linhas depuradas e estruturas elegantes, mas as casas reais nunca são os desenhos. Dilatam-se com o calor, assentam com o solo, respiram com as estações e transformam-se através das pessoas que as habitam.
Não o via na altura, mas o erro que cometia com os edifícios era o mesmo que cometia com os sistemas:
Confundia o diagrama com aquilo que estava vivo. Por mais elegante que seja, um diagrama continua a ser uma história que projetamos sobre algo vivo. Não consegue sentir a diferença entre confiança e obediência, nem perceber o medo a crescer numa sala.
Também não pode saber o que significa pertencer. Um diagrama capta a estrutura. Mas não é a estrutura que dá vida a um sistema. A vida é capacidade de resposta, sensação, movimento contínuo em direção ao equilíbrio. Um diagrama não se consegue adaptar. E é a adaptação, não a estrutura, que torna o sistema vivo.
Tratar «o sistema» como algo exterior a nós
Durante anos, olhei para «os sistemas» como estruturas ou máquinas externas: coisas para estudar, diagnosticar e redesenhar a partir de fora. Este foi o meu equívoco mais profundo. Não existe um lugar fora do sistema, um ponto de observação intocado pelas suas forças, um observador que não seja simultaneamente um participante.
Mas o individualismo diz-nos o contrário. Diz-nos que somos entidades autossuficientes. Que as nossas ações têm origem «dentro» de nós. Que os nossos sucessos e fracassos são pessoais. Impede-nos de ver que tudo o que pensamos, sentimos ou escolhemos acontece dentro de um sistema vivo que se produz a si próprio, moldando-nos mesmo quando tentamos moldá-lo.
O individualismo não distorceu apenas a nossa política ou as nossas organizações. Distorceu a nossa perceção da própria realidade. Fez-nos acreditar que não somos o sistema.
A vida é o sistema, e nós estamos dentro dela
Este é o ponto de viragem. Não existem muitos sistemas. Existe apenas um sistema: a Vida.
Qualquer outro «sistema», social, político, económico ou organizacional, é uma camada simbólica, uma tentativa humana de dividir a totalidade da vida em partes compreensíveis.
Mas essas partes não estão separadas. As células não estão separadas dos corpos. As pessoas não estão separadas das comunidades. As comunidades não estão separadas dos ecossistemas. Os ecossistemas não estão separados do planeta. Os planetas não estão separados das estrelas que lhes dão vida.
E nenhum de nós — nem um só — está separado da Vida.
Não «interagimos com» a vida. Somos vida.
Um processo dentro de um processo, um movimento dentro de um movimento maior, um padrão dentro de um padrão que não criámos, mas que cocriamos continuamente. O pensamento sistémico ajudou-me a ver os padrões, mas não a reconhecer de imediato o meu lugar dentro deles. A ilusão de independência é poderosa.
A tentação de imitar a vida
Hoje, por todo o lado — nos livros sobre liderança, no desenho organizacional, no trabalho de regeneração —, apontamos para o micélio, as florestas, os bandos de aves que se movem em uníssono. Vejam como a vida se organiza. Façamos os nossos sistemas funcionar como a vida. É um belo impulso, talvez o mais perto que chegamos de recordar aquilo de que nos esquecemos.
Mas há uma desconexão silenciosa nesta tendência: os nossos sistemas não precisam de ser como a vida. Copiar a vida continua a ser uma forma de separação. A imitação mantém a vida «ali» e nós «aqui», na esperança de podermos pedir emprestada a sua sabedoria sem regressarmos ao nosso lugar dentro dela. Podemos desenhar organogramas inspirados no micélio e modelos de governação baseados em enxames, mas nenhum deles está vivo.
A vida não é um padrão a imitar.
É um processo em que participamos.
Não precisamos de desenhar diagramas melhores. Precisamos de sistemas que expressem as forças vivas que estão nas suas raízes. Precisamos de devolver os nossos sistemas às condições da vida.
O pensamento sistémico é uma história que tenta recordar aquilo que a história nos fez esquecer
Através da Lente da Vida, o pensamento sistémico torna-se algo muito mais humilde: uma ferramenta simbólica que tenta recordar uma verdade biológica. Uma história que nos remete para uma realidade mais antiga do que qualquer história: a vida é relação.
Não estamos separados do mundo. Os sentimentos são adaptações. A pertença não é opcional. A interdependência não é uma filosofia: é a condição da existência.
O pensamento sistémico não é a resposta. É um convite a recordar o que em tempos sabíamos sem diagramas: não somos partes separadas. Somos expressões de um único sistema vivo. Uma só Vida em muitas formas. A história criou a ilusão de separação. O pensamento sistémico ajudou a revelar essa ilusão.
Mas só a vida — vista, vivida, relacional — a pode dissolver. Esta perspetiva ecoa ideias presentes em várias áreas: desde a visão de Maturana e Varela da vida como algo que se produz a si próprio, aos alertas de Gregory e Nora Bateson de que a ilusão de separação está na raiz do erro sistémico, passando pela insistência de David Bohm em que a fragmentação é um produto do pensamento, da nossa história sobre o mundo, não da realidade. Fritjof Capra descreveu a vida como uma teia de interdependência, e muitas tradições indígenas há muito defendem que os seres humanos não são observadores da vida, mas participantes nela. E James Grier Miller mapeou a vida como fluxos contidos uns nos outros, a todas as escalas.
Estas perspetivas captam parte do panorama e contribuem para aquilo que se torna claro através da Lente da Vida:
A vida é o único sistema,
somos inseparáveis dela,
e o pensamento sistémico é uma ferramenta simbólica que tenta recordar como a vida vive.
Quando viu o sistema?
Ao olhar para trás, aqueles primeiros desenhos de arquitetura parecem-me metáforas da história em que vivia: arrumada, controlada, separada da vida.
Mas a vida não se parece em nada com aqueles desenhos. A vida muda. A vida adapta-se. A vida cocria-se através das relações. E, no momento em que deixamos de tratar os nossos sistemas sociais como plantas e começamos a tratá-los como processos vivos, as nossas histórias podem regressar ao único sistema de onde nunca saímos: a Vida.
A maioria de nós viveu um momento em que o mapa nos deu clareza, mas não ligação. Um momento em que o padrão fazia sentido, mas continuávamos a agir a partir da separação. Um momento em que o diagrama era rigoroso, mas a relação não estava viva. Estes momentos revelam a distância entre a história e a vida.
Por isso, esta é a verdadeira pergunta no coração do «pensamento sistémico»:
O que muda quando deixamos de tentar compreender o sistema
e começamos a reconhecer que somos esse sistema?
