O Cody Recker e a Jessica Perez pensavam que tinham a vida encaminhada. Uma casa modesta em Los Angeles, a filha a crescer, a renda paga a tempo. A casa precisava de obras, mas era um lar. Depois chegou o aviso: têm de sair, vamos fazer obras. Só que não as fizeram. O senhorio, um gigante empresarial, pôs a casa imediatamente à venda. Assim, de um momento para o outro, a estabilidade transformou-se em despejo (Housing Is a Human Right).
Do outro lado do mundo, em Brisbane, as famílias passam por quarteirões onde mais de um terço das casas está vazio. Janelas escuras em filas alinhadas, casas compradas e deixadas sem uso. Para os pais que não conseguem encontrar uma renda acessível, aqueles bairros fantasma são uma bofetada: as casas existem, mas não para eles (Courier Mail).
Na Parte II, estamos a seguir o rasto das ficções que sustentam a Lente da História. As muitas histórias que se tornaram invisíveis para nós.
A crise da habitação não é natural. Não é uma escassez inevitável nem uma lei dos mercados. É uma criação das nossas histórias. Transformámos a terra em propriedade e a propriedade em investimento.
Já ouviu estas frases: «O imobiliário é o seu maior ativo.» «A sua casa é o seu pé-de-meia.»
Parecem senso comum, mas são mitos disfarçados de sabedoria. Impediram-nos de ver a própria vida. A questão não é se vemos isto; a maioria de nós vê. A questão é: como o mudamos?
A propriedade tornou-se um ativo
Através da Lente da História, a pertença reduz-se à propriedade. O valor reduz-se ao preço.
«Este terreno vale meio milhão.»
«Esta casa pertence à empresa.»
Neutras à superfície, estas afirmações deixam de fora o solo, o abrigo, a segurança e a comunidade.
Os mitos que lhes estão por baixo são antigos:
Controlo Necessário: sem propriedade, reinaria o caos.
Imperfeição Humana: não se pode confiar nas pessoas para partilharem a terra ou cuidarem dela.
Supremacia Racional: as avaliações de mercado contam mais do que as relações vividas.
Em conjunto, fazem a propriedade parecer inevitável, mesmo quando há famílias sem casa e casas vazias.
Um lar é mais do que uma propriedade
Mas olhe de novo.
Através da Lente da Vida, podemos ver que um lar não é um ativo. Não é apenas um preço ou uma escritura. Um lar é onde a vida acontece: segurança, conforto, ligação. O chão onde a comunidade cria raízes.
A propriedade é apenas uma história.
O lar é vida.
E outras histórias são possíveis. Não fantasias. Não utopias. Histórias que já estão a tomar forma:
Uma vizinhança que põe recursos em comum.
Um projeto de habitação colaborativa onde as famílias partilham custos e responsabilidades.
Uma entidade comunitária de gestão de terras que mantém a habitação acessível durante gerações.
Economias locais onde as pessoas se apoiam umas às outras, em vez de dependerem de mercados distantes para as salvar.
Nenhuma destas experiências é perfeita. Mas apontam para algo real: uma forma de viver em que a habitação serve a vida, não a especulação. É disso que trata uma economia colaborativa. De nos unir, não de nos dividir. Não apenas de criar riqueza, mas de criar bem-estar: o tipo de riqueza que permite às famílias criar raízes e mantém as comunidades fortes.
Deixar de jogar com regras viciadas
Falemos com clareza. A crise da habitação não é culpa sua. Não existe porque as famílias não trabalharam o suficiente ou não geriram bem o seu dinheiro. Existe porque as regras do sistema foram escritas para tratar os lares como ativos, não como lugares onde a vida e a comunidade criam raízes.
E aqui está a verdade mais difícil: todos vivemos através dessas histórias. Os ricos e quem vive com dificuldades. Senhorios e inquilinos. Políticos, investidores, arrendatários, pais, crianças. Não se trata apenas de algumas pessoas causarem danos, embora algumas o façam. Trata-se de todos estarem a desempenhar o seu papel na história. O que significa que combater as pessoas não vai mudar grande coisa. Tentámos agir dentro do sistema. Tentámos protestar contra ele, reformá-lo, suplicar-lhe. Mas, se o problema é a própria história, então o passo decisivo é mudar de lente e mudar a história para uma que sirva a vida. E depois construir as ferramentas que a tornem real.
Então, o que fazemos concretamente?
Linguagem. Questione as palavras que nos mantêm presos. Chame a atenção quando alguém diz «valor da propriedade» ou «o imobiliário é o seu maior ativo». Fale disso com a família, os amigos e os vizinhos. Começa aqui.
Colaboração. Imagine novas formas de nos coordenarmos sem senhorios ou chefes distantes a tomar as decisões. O que seria preciso para organizar um quarteirão, um prédio ou um bairro de forma a servir as pessoas que lá vivem?
Propriedade. Ajude a criar estruturas jurídicas e financeiras que protejam as comunidades em vez dos especuladores. Se as sociedades comerciais recebem «personalidade jurídica», porque não criar proteções que tornem inviolável o bem-estar das pessoas?
Responsabilidade. Conceba sistemas de confiança que possamos realmente usar: abertos, transparentes, entre pares. Não contratos que presumam o pior, mas protocolos que demonstrem que podemos contar uns com os outros.
Mude de lente e o mundo parece diferente: histórias que servem a vida em vez de a desvalorizarem. Bairros que medem o bem-estar, não apenas a riqueza. Casas que existem para viver, não para os balanços contabilísticos.
Convido-o a mudar a história
Se a história atual lhe serve, fique nela. Se se sente confortável a tratar os lares como ativos, se o mito funciona para si, continue. Mas, se sente a fratura, se vê famílias expulsas enquanto as casas permanecem vazias, se sabe que algo não está certo, então aqui fica o convite: mude a história.
Talvez seja impossível. Talvez seja utópico. Mas não saberemos até tentar. Se não o fizermos, ficamos presos ao que existe. Ninguém nos vai entregar isto feito. Os governos e os mercados estão demasiado mergulhados na velha história. A oportunidade está aqui, em nós: imaginar e construir sistemas onde a vida é o guia e as histórias a seguem.
E este é o momento. Nunca a humanidade teve tanta formação, tanta informação e tantas ligações. Acrescente-se a tecnologia que temos nas mãos: ferramentas para a coordenação, para a transparência, para criar a uma escala com que os nossos antepassados nem poderiam sonhar.
Não há história ao serviço da vida que não possamos tornar real. Se a escolhermos.
